
O Furacão
A menina era legal mas achava que tinha poucos amigos, tinha namorado mas se sentia muito sozinha, era inteligente mas se sentia insignificante.
Tinha muita história, já tinha passado por muitas coisas, mas não contava pra ninguém, gostava de escrever, gostava de ler, mas guardava esse gosto pra alguns poucos momentos de sua vida.
Gostava de poesia, às vezes até arriscava frases em algumas linhas, mas ficavam bem guardadas em seu caderninho e até esquecidas porque nunca mais eram lidas. Gostava de Teatro também, mas não achava que dava em futuro nenhum, que não era muito útil.
Quando era adolescente tinha um sonho de ser escritora, mas o tempo foi passando e foi esquecendo esse sonho porque tinha muitas coisas para fazer, tinha que atender às exigências da modernidade do corrido dia-a-dia da capital. Ah, sim, ela tinha um sonho de morar numa cidade pequena e esse sonho foi ficando cada vez mais distante, tão distante quanto à cidadezinha onde gostaria de morar.
Grande parte de seus sonhos e suas preferências foram sendo deixadas de lado e foi buscar coisas que estavam mais visíveis, coisas que faziam parte do fluxo de seu dia-a-dia.
Enfim, não era uma pessoa muito feliz, não era realizada. Certa época, percebeu que as coisas não estavam fluindo em sua vida, que não estavam dando muito certo, e sentia também que faltava vontade e alegria nas coisas que fazia, até fazia algumas coisas que gostava, mas essas coisas não faziam parte do seu dia a dia eram situações esporádicas, fazia como algum lazer, algum hobbie, algo que não deve e não pode ser feito sempre. E daí surge uma pergunta, e porque não adaptar coisas que gostamos com o que devemos fazer? Ou melhor, porque separar obrigação de coisas que gostamos?
Ela na maior parte da sua vida estava fazendo coisas praticamente impostas, sim, impostas, fazia muitas coisas na vida, que por serem tão normais não percebia que eram coisas impostas, coisas que não gostava, pois da mesma forma que esquecia do que gostava, esquecia também do que não gostava.
Certo dia, quando não era tão nova, mas também não tão velha, resolveu prestar atenção em coisas que gostava mas que foram sendo apagadas da sua vida aos poucos. Resolveu tomar iniciativa, resolveu ressuscitar essas coisas e torná-las mais vivas do que nunca! Foi um processo difícil, mas satisfatório, foi preciso correr contra o fluxo do seu dia-a-dia e inovar, criar situações que eram aliadas às suas preferências.
Ela percebeu que era possível adaptar muitas situações do seu dia-a-dia às suas preferências, ou melhor, que era possível levar em consideração os sentimentos dela, era possível levar-se mais a sério, seus sonhos não eram utópicos. Mas para isso era necessário se impor, transformar e não apenas aceitar coisas e ser transformada.
Ela passou a dar valor a todas as experiências de sua vida, TODAS, pois somos o que vivemos, e de toda e qualquer situação podemos aproveitar algo.
Percebeu que para mudar o rumo da sua vida foi preciso haver uma sucessão de “coisas erradas”, somente assim, ela conseguiu ter uma reflexão sobre os acontecimentos de sua vida de uma forma ampla. Ela tinha uma característica muito boa, quando se sentia muito mal, ou quando acontecia algo de ruim, ela sentia uma enorme vontade de melhorar, de sair daquela situação de dar uma reviravolta, como se viesse um furacão levasse tudo, bagunçasse tudo. Mas naquilo tudo que ele levou tinham tanto coisas boas como ruins, ela perdeu coisas, mas ganhou coisas também, a ação do furação, que inicialmente pareceu ser uma desordem total, posteriormente pôde ser comparada a uma “limpeza”, sim, o furação permitiu que ela enxergasse coisas que antes não conseguia enxergar, levou coisas boas mas coisas ruins também e trouxe novas possibilidades.
Com tudo isso, ela com ou sem namorado não se sentia mais sozinha. Ela era legal e tinha poucos, mas bons amigos, ela passou a escrever textos e mais textos, sem a intenção de serem ótimos, mas pelo prazer de escrever, ela passou a compartilhar muitas coisas da sua vida com outras pessoas. Ela viu que o teatro era muito mais que o futuro, fazia parte do seu presente e enriquecia muito sua vida, ela passou a ter outro olhar sobre a ARTE e passou a ter um certo preconceito em relação a palavra útil. Ela não se achava mais insignificante, muito pelo contrário, percebeu que fazia muitas coisas importantes e que podia aprender muito ainda. Viu que a vida pode ser muito boa mesmo com todos os furacões. Ela nunca mais esqueceu de si mesma.
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